|
Quem pensa que cerveja é a bebida favorita do alemão está enganado.
No país da cerveja, o café é a paixão nacional. E para a minha surpresa,
as chamadas "nações do café", como a Itália e a França, não são
as que mais consomem café na Europa. Das 2.290 toneladas de café
cru (o grão antes de ser torrado e moído) importado anualmente pela
União Europeia, a maior parte do produto é consumido nos países
escandinavos. O país que aparece no topo da lista de consumo por
habitante é a Finlândia: 12,7 kg de café por ano. Mesmo diferenciando-se
o consumo per capita e o consumo total, os grãos crus e os preparados
solúveis, os alemães fazem bonito em todas as listas: ficam em segundo
lugar no ranking de importadores de grãos crus, sua fatia no mercado
mundial de importação de café é de 8% e o consumo per capita anual
fica em torno de 7 a 8 kg. Isto significa que o alemão bebe em média
quatro xícaras de café por dia, o equivalente a 160 litros por ano.
Essa quantidade impressionante não se faz somente de xicrinhas de
expresso, é claro.
O café coado, usando filtro de papel ou prensa-francesa, ainda
é o líder nas cozinhas, mas aqui também se consome bastante o café
solúvel granulado e o capuccino em pó. Além das cafeteiras italianas
(mokas) e máquinas de expresso domésticas, cujo consumo duplica
a cada ano, as máquinas monodose com pads e cápsulas estão se tornando
cada vez mais populares.
O hábito de se tomar café em Berlim data do século XVII. Já em
1675, bebia-se café na corte do príncipe-eleito de Brandemburgo.
Mas naquela época, somente os ricos podiam se dar ao luxo da "bebida
turca", como era apelidado. Com a popularização do café na metade
do século XIX, em 1900 já havia cerca de cem casas de torrefação
na cidade de Berlim. Em 1908, na cidade de Dresden, a alemã Melitta
Bentz inventou o filtro de papel que até hoje é consumido mundialmente.
Nos últimos anos, muitas casas tradicionais de Berlim - os cafés
de salão e de calçada como o antigo Café Möhring em Charlottenburg
- fecharam as portas, mas a cultura do café se renova e o consumo
não diminui. Pelo contrário, 86% dos alemães adultos bebem café
diariamente.
Há cerca de 800 cafeterias em Berlim, de filiais de rede até as
tradicionais ou pequenas que muitas vezes torram o próprio café,
criam blends exclusivos e os vendem como especialidades, caso da
Barcomi's em Kreuzberg, criada em 1994. Leonardo Lacca, cineasta
e dono do café Castigliani em Recife, esteve em Berlim e se impressionou
com a cultura do café na cidade: "Em Berlim encontrei cafeterias
que juntam o rigor obsessivo do alemão pelo espresso perfeito e
o lado hippie do berlinense, sem frescura, cafés que eu queria ter."
Ele faz questão da grafia à italiana e indica três locais para se
provar um espresso perfeito: CK, em Kreuzberg, Syndicato, em Mitte
e GodShot, em Prenzlauer Berg.
Um especialista do café tem por obrigação conhecer todas as etapas
do grão, do cultivo aos processos de torrefação e moagem até se
alcançar a "xícara perfeita". Um dos papas do café em Berlim, fundador
do legendário Café Einstein, hoje segue carreira solo torrando e
distribuindo um café de primeira: Wilhelm Andraschko, do Andraschko
Kaffeemanufaktur, diz que o que distingue um bom café é o sabor
e que esse depende do trato durante o cultivo, da colheita e, é
claro, da torrefação. Um bom expresso por exemplo, gosta de doçura,
e isso é controlado na colheita, retirando apenas os grãos bem maduros.
E deve ser apenas grãos do tipo arábica, nada de misturar robusta,
diz ele.
Os tradicionalistas do café, como Andraschko, não concebem como
a nova geração de coffe shops é capaz de misturar a um bom café
ingredientes tipo xaropes de caramelo e chocolate, como acontece
nas receitas das redes como a Starbucks, que chegou a Berlim em
2006. Mas fato é que essas redes têm na mira justamente o público
jovem que costuma frequentar cafés com ambientes agradáveis e com
acesso à internet, e não se importa de ter a bebida servida em copos
descartáveis.
No campo das redes, o Café Einstein é pioneiro em Berlim. No seu
livro berlinense "O verde violentou o muro", Ignacio de Loyola Brandão
está sempre citando o local, point absoluto nos anos 1980. O primeiro
dos Einstein aberto na cidade logo ficou popular, mas sem perder
a tradição. Todas as filiais têm ambiente especial e isto garante
a qualidade da clientela, sobretudo formada por intelectuais, curiosos
e personalidades da mídia, cinema e literatura. Na verdade, o Einstein
em Charlottenburg é mais que um café, é um restaurante tradicional
de comida alemã, que também oferece uma grande variedade de tortas
deliciosas. Já o Einstein que se encontra em Mitte, tem uma proposta
de café-galeria: lá se come ou bebe café admirando fotos de Helmut
Newton, dentre outros trabalhos expostos. Locais como o Café Einstein
e outros costumam lotar à tarde, na hora do Kaffee und Kuchen (café
e bolo), um ponto alto do dia dos alemães. Quando se visita alguém,
ou se encontra alguém durante a tarde, o café com bolo não pode
faltar.
Fonte: O Globo
|