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Após conquistar o primeiro lugar no Campeonato Brasileiro de Barista
deste ano, Yara Castanho, de 26 anos, entrou definitivamente para
o seleto grupo de experts no preparo do café expresso e de tudo
que envolve o grão - sua história, cultivo, origem e tipos. A vitória
lhe deu a chance de representar o País no campeonato mundial, realizado
em abril, em Atlanta, Estados Unidos. Disputou com 52 baristas internacionais
e voltou para o Brasil como a 18ª melhor do mundo.
Com tais resultados, Yara alcançou uma posição que jamais imaginaria
tempos atrás. "Ainda não caiu a ficha", confessa a barista, que
assumiu a profissão por acaso, há menos de cinco. Depois de abandonar
a faculdade de Design Digital e o posto de vendedora de uma loja
de skate, Yara aceitou a vaga de atendente na cafeteria Suplicy,
especializada em cafés especiais e localizada no bairro dos Jardins.
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"Não tinha a menor noção do que era esse mundo", confessa. "Estava
ainda em treinamento quando conheci e me apaixonei pela cafeteira
italiana La Mazzorco." Sorrateira, começou a observar os outros
baristas trabalhando com a máquina, considerada a melhor do mundo,
e foi pedindo para tirar o café até acertar de vez o ponto. Um mês
depois, já estava operando a La Mazzorco.
Fora do expediente, passou a pesquisar sobre barismo: "Fiquei encantada
com essa profissão, porque é tudo feito à mão, nada é automatizado.
Como cada pessoa pede o café de um jeito, é preciso saber regular
a máquina para preparar o tipo desejado pelos clientes, numa espécie
de customização."
O interesse da recém-contratada era tanto que o dono da cafeteria
Suplicy, Marco Suplicy, a incentivou a ir mais fundo e contratou
duas premiadas especialistas russas para treiná-la, Irina Puzachkova
e Polina Vladmirova. Após dominar a técnica, Yara iniciou um trabalho
exaustivo para educar seu paladar e, assim como um sommelier, poder
degustar e sentir todos os atributos dos grãos especiais.
Acostumada a tomar os tradicionais cafés com açúcar, passou a bebê-lo
puro, uma vez que adoçar mascara os sabores. Nas provas, fez muita
cara feia por causa do amargor. Quando se habituou aos cafés puros,
iniciou seu treino para apurar o paladar e, finalmente, conseguir
decifrar as nuances do sabor.
"Como, geralmente, bebemos café bem açucarado, não percebemos a
má qualidade do pó tradicional, vendido nos mercados", avisa a expert.
"Ao provar um especial, com 100% de grãos da espécie arábica - considerada
a melhor -, é que sentimos a grande diferença." Conforme explica,
o grão de qualidade inferior é o da espécie robusta, justamente
o mais comum, já que é de fácil plantio.
"Por sermos o último elo da cadeia, que vai do produtor ao torrador,
é exigido muito conhecimento técnico e atenção aos detalhes, porque
qualquer distração pode levar ao erro", ressalta Yara. "O barista
nunca vai melhorar um café ruim, mas pode destruir um bom."
Sabor e performance
Nas competições, os concorrentes precisam preparar com perfeição
vários tipos da bebida e em pouquíssimo tempo, enquanto explicam
para os jurados as qualidades do grão escolhido para a prova. Atuam
como se estivessem apresentando um espetáculo, com direito a trilha
sonora. No último campeonato internacional, realizado este ano em
Atlanta, Yara fez quatro expressos, quatro cappuccinos e quatro
drinques à base de café - tudo isso em 15 minutos.
Para enfrentar os adversários e conseguir boas classificações,
ela se prepara muito. As cinco horas ininterruptas por dia, que
já dedica ao ofício normalmente, chegam a doze ou mais. Mas o esforço
vale a pena. Em 2007, quando participou pela primeira vez do Campeonato
Brasileiro de Barista, a iniciante levou o terceiro lugar. No ano
seguinte, pegou o segundo. E não sossegou até ganhar o troféu, que
abocanhou recentemente.
Tanta dedicação já lhe rendeu vários frutos - mas não financeiramente
falando, pelo menos por enquanto, já que ganha pouco mais do que
a média salarial de um barista, que é de R$600,00. Por outro lado,
Yara está tendo a chance de interagir com professores de peso. Sua
preparação para o campeonato mundial, por exemplo, contou com os
préstimos do campeão de 2008, o irlandês Stephen Morrissey, e do
premiado brasileiro Richard Orlando Kumagai. Por causa da competição,
ela conseguiu realizar um de seus grandes sonhos, que era viajar
para o exterior.
Convites internacionais
Em função da boa classificação, outras portas se abriram. Este ano,
Yara passou 12 dias na Nicarágua com alguns dos melhores baristas
do mundo, conhecendo a vida dos coletores de café e todo o processo
que envolve o plantio. Na sequência, foi para Milão, onde fez o
lançamento de uma máquina cafeteira, ao lado do atual campeão mundial,
o inglês Gwilym Davies. "Agora fui convidada para trabalhar durante
seis meses, a partir do começo do ano, na cafeteria Estate Coffee,
em Copenhague, que é tradicional e conhecida pela qualidade da torra
dos grãos."
Durante esse período de trabalho na Dinamarca, Yara fará uma breve
pausa para voltar temporariamente ao Brasil. Quer se concentrar
em seus treinos, para participar do campeonato nacional de 2010,
de olho novamente no primeiro lugar.
Fonte: O Estado de São Paulo
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